José Luís Figueiredo recorda António Gouveia 25 anos após a sua morte

Querido amigo...
Quis o destino que no dia 4 de Agosto de 1991, tinhas tu, escassos meses de vida, em plena arena, da praça de Angra do Heroísmo um toiro da ganadaria de Rego Botelho, te desse uma profunda cornada, da qual jamais recuperaste, pois de forma cobarde e brutal tirou a vida ao teu querido pai, privando-te do amor (que era muito) que tinha para te dar. A tua família bem tentou compensar-te pela perda, mas foi certamente uma luta perdida. 
Não consigo imaginar a dor que sempre te acompanhou, por nunca poderes dizer aos teus amigos:
- Vem ali o meu pai.
Há uns anos começamos a conviver, a ver corridas juntos, és um grande aficionado, um apaixonado pela arte de pegar toiros, arte essa que te privou do amor do teu pai, falámos algumas (poucas) vezes do sucedido e sempre percebi que não me atribuías culpas.
No passado dia 2 de Julho, no Montijo levaste a mão ao bolso, tiraste um papel e disseste:
- Toma isto é para ti.
Fiquei sem palavras, era um escrito, por mim efectuado, pouco tempo após a morte de teu pai e que tu guardaste religiosamente e agora num gesto que me tocou  profundamente me ofertaste.
Nessa noite li e reli vezes sem conta o escrito, percebi a grandiosidade do teu gesto e confirmei que tal como o teu pai tens um coração de ouro, fiz finalmente o luto, pois senti que o teu pai abençoou a nossa amizade.
Obrigado João

José Luís Figueiredo
(à época cabo de forcados
dos Amadores do Montijo)

OLÉ FORCADO ! ! !
A caminho de Alcácer desfilou pela minha mente imagens do último dia de vida do António. 
Imagens tão reais que só o facto de ir ao volante me garantiam não se tratar de um sonho.
Após uma manhã calma e serena o António recolheu ao seu aposento iniciando um ritual que não dispensava, improvisa um altar e coloca um lugar de destaque a foto do filho que tanto amava. 
Depois reza em silêncio durante largos minutos, aproximei-me e reparei que estava a chorar, ao ver a minha cara de espanto respondeu: "Tenho saudades do meu puto". 
Hoje penso que o António pressentiu a tragédia.
Ultrapassada esta fase começou então a fardar-se retomando a sua contagiante alegria.
Já em praça, eis que na arena entra o toiro. 
Um manso perdido, salteador sem classe. Fico preocupado, o António troca comigo um olhar silencioso mas esclarecedor. 
De seguida indico-lhe que é ele o "escolhido", trocamos breves palavras. Estávamos ambos de acordo ia ser difícil. O António sorri e diz: "Seja o que Deus quiser".
E foi como Deus Quis!...
Estas recordações comovem-me. Parei o carro junto a uma fonte e dei largas ao meu desespero. Não me apercebi que perto se encontrava um casal, que em silêncio respeitava a minha dor. Depois aproximaram-se
e carinhosamente tentaram consolar-me. Disseram-me que não eram aficionados mas queriam estar presentes na homenagem e que levavam flores.
"Flores" essa palavra teve em mim um significado mágico, reagi de pronto e lembrei-me que bonito seria todas as senhoras levarem uma flor. Flores essas que serão o único "Troféu" a atribuir a todos aqueles que graciosamente colaboram nesta homenagem. 
Penso então que devemos  pôr de parte as lágrimas, já derramamos bastantes... A homenagem terá que ser uma "Festa"... O António ficará feliz!...
UMA FESTA COM TOIROS, MULHERES (Sevilhanas) e FADO.
Lembro que afinal o António não foi uma vítima, foi um eleito por Deus que teve a glória de morrer no seu posto com honra e dignidade, fazendo aquilo que adorava.
"PEGAR TOIROS".
Peço a Deus que me perdoe mas nesse momento senti invejo de ti querido amigo.

SETEMBRO DE 1991
José Luís Figueiredo
(Cabo do G.F.A.Montijo)

O forcado António Gouveia morreu há 25 anos na arena da Monumental de Angra do Heroísmo (Ilha Terceira), colhido por um toiro de Gaspar Baldaya, com o ferro de Rego Botelho e o peso de 500 quilos, que acabara de ser lidado pelo cavaleiro João Carlos Pamplona.

Natural de Alcácer do Sal, onde nasceu a 4 de Agosto de 1966, o malogrado António Gouveia era filho do maioral da ganadaria Branco Núncio e completava exactamente 25 anos de vida no dia em que encontrou a morte a pegar um toiro nos Açores. Hoje, faria 50 anos.

Cortesia: http://www.portadossustos.com/

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